Crise existencial da democracia reacende risco do populismo autoritário

Por Jochen Bittner, editor do semanário alemão Die Zeit.

Nós alemães nunca poderemos nos liberar do trauma de nossa história recente. E isso não poderia ser mais atual, tomando em conta o estado do nosso continente e o que acontece do outro lado do Atlântico. Há muitas diferenças entre o que sucedeu aqui nos Anos 30 do século passado e o que sucede agora.

Está claro que presidenciável estadunidense Donald Trump e o líder extremista austríaco Norbert Hofer não são Adolf Hitler.

Apesar disso, a forma na qual a Alemanha enveredou, naqueles anos entre guerras, rumo a um estilo peculiar de autoritarismo, mostra como as democracias liberais podem girar, de repente, na direção de posições totalmente contrárias ao liberalismo.

Deixando de lado o já conhecido debate sobre a ascensão do nazismo como um fenômeno que os alemães já levavam marcado em sua idiossincrasia, é possível identificar quatro fatores que fizeram o país a rechaçar a República de Weimar, a democracia parlamentarista e constitucional posterior ao Tratado de Versalhes e à I Guerra Mundial: crise econômica, perda de confiança nas instituições, uma sensação de humilhação na sociedade e uma série de erros políticos.

De certo modo, tudo isso está presente nas atuais democracias ocidentais.

O colapso da bolsa em 1929, conhecido como Black Friday, produziu uma depressão econômica global. As coisas iam mal nos Estados Unidos, mas na Alemanha estavam pior. A produção industrial caiu pela metade em três anos, a bolsa perdeu dois terços do seu valor, a inflação e o desemprego subiram até as nuvens e o governo de Weimar, que já não contava com a aprovação dos alemães, parecia não oferecer uma alternativa.

Tudo isso sucedeu enquanto os valores e tradições mudavam, fruto da modernização produzida nos Anos 20. As mulheres começaram a trabalhar, a estudar, a votar e a dormir com quem quisessem.

Isso aumentou a brecha cultural entre os trabalhadores e a classe média mais conservadora, e despertou uma vanguarda cosmopolita na política, economia e nas artes, que chegou ao seu ponto máximo no momento do desastre econômico. A população culpou as elites pelo caos provocado, e as massas clamaram por uma mão de ferro que pudesse voltar a impor a ordem.

Há quem acredite que Hitler foi somente um oportunista, que quase ninguém compreendia a ameaça que ele significava. Aliás, muitos políticos de partidos tradicionais reconheceram que era um perigo, mas supostamente não souberam como detê-lo.

Alguns não queriam fazê-lo: os conservadores e a nobreza pensaram que podia ser seu inocente útil e que, como chanceler, estaria limitado pelos ministros mais sensatos. Franz von Papen, um nobre que se ofereceu para ser seu assistente mais direto, chegou a dizer, em tom de deboche: “nós já o contratamos”.

Ao mesmo tempo, nem mesmo o risco iminente de uma ditadura fascista foi capaz de convencer a esquerda da necessidade de unidade. Em vez de buscar a conciliação para defender o interesse nacional, Ernst Thälmann, líder do partido comunista da Alemanha naquela época, chamou os social-democratas de “a ala moderada do fascismo”. Fica claro porque não foi difícil para Hitler unir os amplos setores da sociedade alemã em torno ao seu projeto.

Estamos num momento similar ao da República de Weimar?

A crise econômica de 2008 e a recessão global que ela produziu não foram, nem de perto, tão dolorosas como a depressão daquela época. Porém, suas consequências são sim similares.

O crescimento econômico, no começo deste século, permitiu que estadunidenses e europeus acreditassem de tal forma na fortaleza de suas economias que levou também a uma gigantesca desilusão: a crise dos bancos, a bolha do mercado imobiliário e a ação dos governos deixara milhões de pessoas furiosas, pensavam que as instituições, e sobretudo os políticos que manejaram a situação, os traíram.

Os eleitores se perguntaram porque os governos permitiram que os banqueiros se comportassem como criminosos. Também se perguntaram porque salvaram os bancos em vez de resgatar as fábricas de automóveis. Questionaram o que levou os governantes a aceitar a chegada de milhões de imigrantes. A grande pergunta é se existe uma legislação diferente para a elite, regida por uma cosmovisão hipermoderna e liberal, e que olha para a classe trabalhadora com desdém, desprezando seus valores e qualificando-a como um conglomerado de pessoas sem capacidades.

Nos Estados Unidos e na Europa, a ascensão de movimentos políticos de ruptura é um sintoma de mudança cultural que se enfrenta com a pós-modernidade globalizada – assim como, no período entre guerras, houve um sentimento de rechaço à modernidade.

A acusação mais comum das massas é que a democracia liberal foi longe demais, que se tornou uma ideologia, que só serve para a elite, e os demais pagam o pato. Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (a extrema-direita da França), usa o termo les invisibles et les oubliés (os invisíveis e os esquecidos) para se referir ao cidadão comum de classe média ou baixa.

Claro que não estamos em 1933. Agora, as instituições democráticas são muito mais sólidas e estáveis. Mas o poder da nostalgia não depende da época. Por isso, e apesar das diferenças, vivemos um momento similar nas democracias ocidentais.

É fácil dizer que as pessoas devem aceitar a realidade e se esforçar para conseguir reformas práticas, mas os partidos tradicionais não fizeram nem mesmo isso – ao menos não de uma forma convincente. Preferem o enfrentamento entre si, e isso permite que a ascensão de líderes demagogos seja vista como uma solução e não como um problema.

Trump não é Hitler, mas isso não é o que importa. Hoje, assim como no período entre guerras, vemos que o liberalismo não é capaz de dar respostas aos problemas que a sociedade aponta.

Nem sequer aos que questionam sua própria existência.

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