“É a economia, estúpido!”

“Há um estudo do Fernando Filgueiras [cientista político da UFMG] que mostra que vários instrumentos contra a corrupção foram implantados durante o mandato da Dilma, só que ela não comunicou isso. A vacina poderia ter sido feita ao longo do governo. Agora, na campanha, ela diz, mas fica meio tardio.”

Entrevista: Luciana Veiga, cientista politica.

“Corrupção influencia mais o voto quando economia não vai bem”

A corrida presidencial entre a petista Dilma Rousseff e o tucano Aécio Neves está muito acirrada porque, neste ano, os cerca de 20% de eleitores de centro e voláteis – que costumam definir a eleição – se fragmentaram e não chegaram à conclusão se o copo da economia brasileira está mais cheio ou vazio.

É o que afirma a cientista política Luciana Veiga, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que tem pós-doutorado em comportamento eleitoral pela Universidade da Califórnia. Especialista em pesquisa qualitativa, Luciana diz que, sem uma âncora ideológica, à esquerda ou à direita, essa faixa de eleitores guia-se essencialmente pelo desempenho da economia, mas se dividiu entre os argumentos de Dilma, que ressalta o reduzido nível de desemprego no país, e o de Aécio, que aponta o aumento da inflação e a baixa taxa de crescimento do PIB.

É neste ambiente, sem uma posição claramente positiva sobre a economia, afirma a pesquisadora, que o tema da corrupção, em geral, tende a influenciar mais o eleitor. “A corrupção ganha mais evidência em situações em que a economia não vai bem”, diz.

É isso que estaria por trás do aumento das atuais manifestações de antipetismo – maiores até do que no auge do mensalão, que não impediu a fácil reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006. A economia ia bem.

Para Luciana, uma série de outros fatores criou a insatisfação que se demonstra agora contra o PT e contras as políticas sociais, mesmo entre as camadas mais pobres. Se nas classes mais altas o eleitor é sensível ao tema da corrupção, nas mais baixas ou médias, a “bronca” é daqueles que ficam logo acima da linha de corte de programas federais. Sem acesso, sentem-se prejudicados e criticam a prioridade do governo – que julgam excessiva – na redução da pobreza e da miséria. Querem o mesmo esforço do Executivo para melhorar a qualidade da saúde, da educação e da segurança.

Ao lado das denúncias de corrupção, explorar essa frustração dos que se sentem preteridos é o que fez Aécio alcançar 50% de intenção de votos, diz Luciana Veiga. “O argumento do PSDB que passa muito bem é o de fazer um Brasil para todos. É esse o argumento deles que está pegando na população”, afirma.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Valor:

Valor: Os eleitores de Marina irão mais para Dilma ou para Aécio e por quê?

Luciana Veiga: Podemos fazer uma tipologia do voto da Marina. Tem um voto que é, antes de tudo, anti-Dilma, contra os últimos quatro anos de governo – o que não significa que seja contra os oito anos de Lula. Esse voto vai para o Aécio. Há também um voto da Marina que é pela renovação da política. Esse também vai para o Aécio. O voto que poderia não ir para o Aécio é o voto mais da identidade da Marina enquanto uma pessoa humilde, simples, às vezes até mesmo com um viés religioso.

Valor: A grande maioria dos marinistas vai para o Aécio.

Luciana: Sim, porque a grande maioria é anti-Dilma ou um anti-PT buscando uma mudança mais macro. O primeiro grupo quer que Dilma saia, mas não é necessariamente contra o projeto do PT, mas porque ela é ineficiente, isso ou aquilo, e abrange os que querem que o PT saia, porque é o PT da corrupção. E tem um grupo que quer uma mudança muito mais macro, proposta inicialmente pela Marina, de uma política mais limpa, honesta, mas que se esvaziou ao longo da campanha. Com os ataques [à ex-senadora], eles foram reconhecendo que aquela mudança era inviável, porque Marina não teria governabilidade. Esses sabem que não basta sair o PT, é preciso ir além, e que, com Aécio, não vai ter uma mudança macro. É uma mudança mais pé no chão. Ele [Aécio] satisfaz os dois grupos.

Valor: O eleitor pode deixar de votar em Dilma por considerá-la ineficiente, mesmo tendo afinidade ideológica com o projeto do PT?

Luciana: Você não tem um eleitor da esquerda votando no Aécio por causa disso. Isso não existe. Porque aí o eleitor de esquerda se alinha a Dilma. Mesmo que ele a ache ruim. O que tem é um eleitor de centro, que poderia ir para um lado ou para outro, que nas eleições anteriores votou no PT, e que agora não tem nenhuma âncora ideológica. E na ausência de âncora ideológica ele vai para o outro lado.

Valor: Que perfil ele tem?

Luciana: O eleitor volátil não tem uma identidade ideológica forte. Ele pode cair para um lado ou para o outro. E não é um segmento pequeno. Na disputa de 2010, em uma escala de 0 a 10, sendo 0 extrema esquerda e 10 extrema direita, 19,8% dos eleitores se posicionaram no ponto 5, absolutamente centro, de acordo com dados dos Estudos Eleitorais Brasileiros (Eseb), do Cesop/Unicamp. E esse eleitorado se movimenta muito pelo desempenho da economia. Se ela vai bem, ele vai para um lado; se ela vai mal, ele vai para o outro. É a situação em que se está agora. A Dilma dizendo que temos a menor taxa de desemprego, e o Aécio dizendo que a taxa de inflação não para de aumentar. Não há uma unanimidade sobre o desempenho da economia e esse eleitorado está fragmentado. E tem um pano de fundo que é o tema corrupção, que tenta descredenciar Dilma.

Valor: A corrupção tem muito peso na escolha?

Luciana: Existem alguns estudos em Portugal, e autores aqui já começam a trabalhar nessa linha, que mostram que a corrupção ganha mais evidência em situações em que a economia não vai bem. Se a economia vai bem, a corrupção ganha menos evidência. Por quê? Porque existe a ideia de que corruptos, em alguma medida, todos os partidos são. Não existe partido que é corrupto e outro que não é corrupto. O que o Aécio quer dizer é que o PT é mais corrupto do que os outros. Agora, o eleitor, muitas vezes, não age como um juiz, como a teoria da racionalidade diz. Existe um componente de afetividade, no qual o eleitor, embora não adore, gosta mais de um candidato. Os ataques sobre corrupção têm o efeito de conservar o seu eleitorado, mais do que conquistar o do outro.

“Tem favorecido por programa federal com tendência de voto no PSDB. Porque acha que não basta dar benefício”

Valor: Os marqueteiros costumam recorrer a propagandas chamadas de vacinas, para prevenir ou amenizar os ataques adversários. Dilma, para a questão da corrupção, e Aécio, para se defender de eventuais críticas à sua vida pessoal, souberam utilizá-las?

Luciana: De verdade, a campanha da Dilma ainda não bateu na farra. O que temos é um ataque à política econômica do PSDB, porque é a de Arminio Fraga [ex-presidente do Banco Central], que já vimos no passado, e não privilegia o pobre. Esse é o ataque número 1. O ataque número 2 é: o Aécio diz que é isso tudo, mas em Minas Gerais ele está supermal. Quem conhece Aécio, não vota em Aécio. Por ora, é isso. Por que o ataque ainda não chegou no nível pessoal? Porque esse é o ataque mais perigoso para todas as campanhas – inclusive para quem faz. Porque se você faz um ataque político fundamentado, baseados em documentos, em jornais, é um argumento que funciona. Um ataque sobre a vida pessoal pode ter um efeito bumerangue, na hora. Todo cuidado está sendo feito neste sentido.

Valor: Mas isso não significa que não vá ser feito.

Luciana: Exato, pode ser que esteja sendo guardado. Agora, sob o ponto de vista da vacina, o Aécio está se resguardando. Ele sabe que isso pode vir. Toda a vinheta de abertura dos programas dele mostra que ele é casado, com a mulher do lado, pai de uma filha, pai de gêmeos, que é um homem honrado. O tempo inteiro ele está colocando esse contexto familiar, de que é uma pessoa séria. A primeira vacina é essa: fortalecer minha imagem de homem de família, para quando vier o ataque, esta imagem já ter sido criada. A segunda vacina é descredenciar a fonte, ao dizer que a Dilma e o PT fazem corrupção, e isso e aquilo. A terceira vacina é descredenciar o processo, ao dizer que a Dilma ataca desesperadamente. Aí, entram aqueles spots [inserções exibidas durante o intervalo normal da programação das emissoras] em que tem uma mulher no centro e chega uma pessoa e fala [no pé do ouvido], chega outra e fala, e no fim a atriz fala que o PT está querendo ameaçar você. É uma vacina. Desqualifica a mensagem do PT. Outra é um spot que fala: para cada crítica, uma ideia.

Valor: O PT construiu vacinas?

Luciana: No caso do PT, não chegou como vacina. Quando eu piso num prego, e depois tomo antitetânica, não é uma vacina no sentido de prevenir uma doença. Ela veio depois. O PT tem como grande fragilidade as denúncias de corrupção, desde o mensalão, os desvios – o que foi aumentado com a Copa [do Mundo]. O que a Dilma fez? Lá pelas tantas, começou a divulgar que ela, em última instância, é uma presidente que coloca as instituições para funcionar. Tanto que todo o discurso dela agora é esse: quando você não investiga, a corrupção não aparece. Há um estudo do Fernando Filgueiras [cientista político da UFMG] que mostra que vários instrumentos contra a corrupção foram implantados durante o mandato da Dilma, só que ela não comunicou isso. A vacina poderia ter sido feita ao longo do governo. Agora, na campanha, ela diz, mas fica meio tardio.

Valor: O antipetismo aumentou ou os antipetistas é que estão mais encorajados a se manifestar?

Luciana: Você teve o mandato do Fernando Henrique [Cardoso], depois o Lula, que virou uma unanimidade. Em 2010, ele chegou ao fim do governo com mais de 80% de aprovação. Qualquer coisa que você fosse anti-Lula, você era uma exceção. E a despeito disso, desde que o PT era oposição, os petistas sempre tiveram mais atitude no sentido de expressar sua preferência. Os eleitores do PSDB ou de centro-direito sempre foram muito mais tímidos.

Valor: Isso mudou?

Luciana: Nessa eleição, as pessoas que não são petistas estão com mais argumento para falar. Os conservadores estão se sentindo mais à vontade para se manifestar do que antes do suposto fracasso – ou o não sucesso, porque não está no auge – de um governo de esquerda. Isso não começou em setembro ou com a propaganda eleitoral. Desde a passeata [as manifestações de junho do ano passado] já tem esse sentimento antigoverno, que vira anti-PT, e que a Copa deu um monte de argumento com desvio de dinheiro e tudo mais. A construção desse argumento vem daí, com as pessoas se sentindo mais empoderadas a se posicionar contra o governo e o partido que está no governo. E tem o mensalão, nem tanto por ele mesmo, mas pelo processo, com alguns políticos que começaram a ter vantagens em relação a presos comuns. Isso incomodou muito. As pessoas foram se enchendo de raiva, desde as passeatas. Quando descobriram que o país tinha dinheiro para bancar uma Copa, mas não tinha para a saúde, que prioridade do governo era aquela? Vários episódios foram fomentando essa coisa.

Valor: Que mais?

Luciana: Aí, vamos lembrar, há uma classe média que não é beneficiada pelos projetos sociais do governo do PT. O governo priorizou a redução da miséria, só que, como você tem uma classe média baixa, em última instância, até quando você estava no governo Lula, ela crescia. Quando todo mundo cresce, ótimo. Mas quando o Brasil para de crescer e começa a ter um pouco de inflação, essa classe média baixa, que paga imposto pra caramba e sustenta os projetos sociais, mas ao mesmo tempo não tem nenhum benefício e começa a pagar muito mais caro pela comida, pelos serviços, por tudo que tem que pagar, ela começa a ter insatisfação também. Há uma percepção de não atendimento de uma demanda que começa a não se sentir representada. Esse ódio do PT tem que ter cuidado porque, às vezes, as pessoas acham que é só coisa da imprensa, mas tem um embasamento. OK, a imprensa é que pauta, mas ela também não inventa. Tem que ver quem está falando isso. Você pega no interior de São Paulo a classe C e D falando isso de maneira muito forte, com muita raiva mesmo.

Valor: Onde se concentra o antipetismo?

Luciana: Existe uma distribuição no mapa, de São Paulo para o Sul e tem alguns componentes de valor conceitual também. Essa coisa do Bolsa Família, por exemplo. As pessoas falam que outras agem de maneira muito preconceituosa [ao criticar o programa]. Mas a moça de Pelotas acorda cedo e vai trabalhar às 6h da manhã na lanchonete da rodoviária da cidade. Ela não tem benefício nenhum, não tem acesso aos recursos. E ela banca o processo todo. Ela é descendente de imigrantes e sua única forma de receber dinheiro é pelo trabalho. [Para ela] Dinheiro que não vem do trabalho não é dinheiro limpo.

Valor: Por isso ela tem aversão ao programa?

Luciana: Essa moça tem uma aversão ao Bolsa Família por dois componentes: primeiro, o valor dela, é ideológico; no Sul, a aversão [ao programa] reflete essa coisa do imigrante, de que tudo que não vem pelo trabalho é errado. Eles não têm a dimensão de que [o Bolsa Família] é um direito para o bem-estar social, para a redução da pobreza, que se exige uma contrapartida [para receber a bolsa]. Isso não passa pela cabeça deles. Temos que levar em conta esse elemento ideológico mais conservador. Ele aflora. O segundo componente é o valor meramente econômico e racional: eu recebo três salários mínimos e não tenho acesso aos benefícios. Quero fazer um Pronatec, mas não posso, porque eu fiz um ano – um ano – de escola particular, de quinta categoria, que é o que eu podia pagar, e por isso não posso ter acesso [ao programa].

“Aécio está se resguardando dos ataques, com vacinas. Em toda a vinheta de abertura, ele mostra a família”

Valor: Quem fica fora dos programas se sente prejudicado.

Luciana: Existe uma série de restrições porque as políticas do governo são muito focadas. Por um lado isso é positivo. Por exemplo, um dos méritos do Bolsa Família é a maneira como ele é focado, atua de fato na franja, para aqueles que realmente precisam. Só que, quando você faz a linha de corte, [prejudica] aquele primeiro que fica do lado de fora – que talvez seja o que tenha estudado a vida inteira numa escola pública, mas que o pai se esforçou para um dia matriculá-lo numa escola privada, e aí chega um programa desse [como o Pronatec] e o coloca para trás. A sensação dele é que ele é pobre – ele se identifica assim – mas não tem acesso. A linha de corte sempre vai ser um problema. Vai excluir pessoas que por um triz poderiam estar inseridas. De todo modo, faz com que a pessoa se sinta preterida.

Valor: São muitas as camadas da população que se sentem assim?

Luciana: Este é um segmento pequeno, assim como o outro anterior, ideológico, como também é aquele de classe média, que acha que tem o rei na barriga e entende o Bolsa Família como dádiva [para os miseráveis] e não como direito. Mas são diversos segmentos que, em última instância, compõem essa massa contra as políticas sociais do governo. Agora, há, mesmo na direita, um segmento que é a favor, não está necessariamente contra as políticas sociais. Tem muita gente da classe B e A, que não acha que o problema do governo seja a política social. O problema com o governo é a corrupção, é a ineficiência. Esse discurso é predominante. Vamos combinar que o que predomina na aversão ao PT não são as políticas sociais. É a corrupção, a ineficiência, o aparelhamento do Estado, esse é o argumento, por excelência, da pessoa que é contra o PT.

Valor: Não há também uma aversão ideológica pelos mais pobres, que são o foco do partido?

Luciana: Há uma coisa superlegítima, que é a representação de interesses. Há segmentos da sociedade que não se sentem representados pelo governo do PT. Posso ser classe média paulistana e não me sentir representada pelo PT. É normal. É representação de classe e [por isso] voto no PSDB. Não tem problema. Ninguém tem que ficar necessariamente a favor de um governo que diz com todas as letras que prioriza os mais pobres. A bronca dessas pessoas, de verdade, não é que o pobre esteja recebendo.

Valor: Qual é a bronca?

Luciana: A bronca é que quando chegam ao posto de saúde, ele não funciona, que a educação pública não funciona. Que quando passa pela rua, ela não tem segurança. O que elas ficam injuriadas é que há um foco na redução da miséria e da pobreza – exclusivamente. Não é que elas sejam contra a redução da pobreza, ninguém é. Para dizer que não, vamos considerar que haja 5%, um maluco que vá falar isso. Mas não é o normal. Não são os 50% que estão com Aécio que querem o fim das políticas sociais. O que talvez esteja – e aí é o argumento do PSDB que passa muito bem – é o de fazer um Brasil para todos. É esse o argumento deles que está pegando na população.

Valor: Qual é o risco para o PT?

Luciana: Se o PT não prestar atenção, e não for para esse lado também, nem ele vai ter a adesão dos beneficiários de hoje. Tem pessoa que fez o Fies e está com tendência de voto no PSDB. Porque ela acha que não basta dar benefício, é preciso dar estrutura maior de bem-estar na saúde, na educação e na segurança. O que nem Dilma, nem Fernando Henrique fez. Ninguém fez. Ninguém resolveu isso seriamente. Na saúde, eu acho que os governos têm investido muito dinheiro, não tanto quanto precisavam, só que a demanda é absurda. E educação eu preciso de toda maneira, porque preciso que meu filho tenha oportunidade. Quero que ele seja mais do que eu. E a segurança bate na casa das pessoas o tempo inteiro. Em Maceió, as pessoas têm medo de andar na rua. É uma coisa exorbitante. Em capitais do país, do Nordeste, as pessoas morrem de medo mesmo.

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