Flagrada tentando enganar regulador americano, Deloitte brasileira mancha ainda mais imagem do país

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DO VALOR

Fraude interna expõe deficiência de controles da Deloitte no Brasil

A firma de auditoria e consultoria Deloitte terá que lidar com aquele que, possivelmente, será o maior desafio que já teve em termos de gerenciamento de imagem e reputação em mais de cem anos de Brasil. A unidade brasileira terá que conviver até meados de 2017 com um monitor externo e fica também proibida temporariamente de aceitar novos clientes que tenham registro nos EUA (ver mais em Impacto financeiro será diluído, diz firma). Normalmente, as firmas de auditoria são chamadas a justificar por que não encontraram fraudes contábeis em seus clientes. Neste caso, a Deloitte tem que explicar como nove de seus sócios, sendo três em cargos elevados de liderança, agiram para tentar enganar o órgão regulador das auditorias nos Estados Unidos, conhecido pela sigla PCAOB. Pessoas da própria auditoria, cuja função é fiscalizar as empresas e proteger investidores, violaram as normas da profissão, embora sem nenhuma evidência de conluio com os clientes ou de obtenção de vantagens financeira.contabil

Pessoas da própria auditoria, cuja função é fiscalizar empresas e proteger investidores, violaram as normas Ao todo, a firma terá que desembolsar quase R$ 33 milhões para se livrar de acusações do próprio PCAOB, que receberá US$ 8 milhões, e também da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que ficará com R$ 5,36 milhões.

Em 2012, numa de suas inspeções regulares que faz no Brasil, o PCAOB informou à Deloitte que analisaria os trabalhos feitos pelos auditores em relação aos balanços de Gol, Oi e um terceiro cliente (que acabou não sendo envolvido), referentes a 2010. Segundo o regulador, assim que soube da escolha, o sócio responsável pela conta da Gol, José Domingos do Prado, pediu acesso aos papéis de trabalho antes que os inspetores chegassem e determinou que seus subordinados fizessem alterações nos documentos. O auditor argumentou que precisaria fazer uma alteração pontual em um item específico, o que é permitido. Mas a investigação revelou que, ao todo, 70 documentos foram alterados, o que é proibido pelas normas da profissão. A ideia era tentar encobrir falhas no processo de auditoria e incluir, a posteriori, argumentos que teriam servido de base para julgamentos profissionais exercidos na época.

Pouco antes de assinar o parecer da Gol, em fevereiro de 2011, Domingos havia sido promovido a sócio­-líder de auditoria no Brasil, o que o tornava um potencial candidato a presidente da firma. Mais do que um bônus menor pela falha técnica, uma reprimenda pública do PCAOB talvez representasse uma chance menor de ascensão profissional para o executivo. Na condição de principal artífice da série de irregularidades identificadas, Domingos, que havia ido para a Grant Thornton depois de ter saído da Deloitte no início deste ano (na época o motivo não era conhecido), foi banido para sempre de participar como sócio de uma empresa de auditoria que atue nos Estados Unidos.

Procurado, ele não quis se pronunciar. A GT disse apenas que os trabalhos feitos para clientes estrangeiros não serão afetados pelas medidas anunciadas ontem. Outros dois sócios seniores na Deloitte tiveram conhecimento das irregularidades cometidas por Domingos e sua equipe em fevereiro de 2014, à medida que os questionamentos do PCAOB se repetiam e o órgão não se mostrava satisfeito com as respostas. Em vez de reportar o problema aos órgãos internos ou mesmo ao PCAOB, Wanderley Olivetti, principal sócio da área técnica de auditoria, e Maurício Pires, que era o responsável pela área de risco, ajudaram a esconder o problema. E continuaram enviando, quando requisitados, os papéis de trabalho que sabiam estar adulterados para os reguladores, e negando, em testemunhos prestados ao órgão regulador sob juramento, qualquer modificação nos documentos. Os dois foram afastados de suas posições na Deloitte em julho, tão logo o presidente no Brasil, Altair Rossatto, que havia assumido em 1º de junho, viu nos documentos do PCAOB evidências de participação. O afastamento definitivo ocorreu em novembro, com o fim das investigações.

O acordo fechado pelos dois com o regulador determinou uma suspensão de cinco anos para que eles prestem serviço de auditoria a clientes dos EUA. Na parte final do processo, Olivetti e Pires colaboraram, e isso amenizou suas penas. Mas a principal contribuição para elucidação do caso partiu de André Ricardo Aguillar Paulon, gerente responsável pela auditoria da Gol na época, e depois promovido a sócio. Ele admitiu que fez pessoalmente parte das adulterações e apresentou gravações de conversas que mostravam o envolvimento de superiores. Numa delas, Pires o orienta a apagar arquivos que permitissem que o PCAOB pudesse descobrir a alteração nos papéis de trabalho. Paulon será suspenso por um ano.

Outros quatro sócios, um deles aposentado, e um gerente que tiveram papel secundário nas irregularidades foram punidos. Três supostamente envolvidos na auditoria da Oi também foram punidos, uma delas sócia, por alegadamente terem alterado papéis de trabalho que estavam gravados em CDs, e não no sistema, como determina a política interna da Deloitte. O uso de CDs, contudo, impediu que se comprovasse as alterações que o PCAOB alega ter havido nos documentos, uma vez que não há versão anterior salva para confrontar com aquela que foi apresentada ao regulador.

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