Temer põe açucar na chupeta no patronato: Governo interino, lucros permanentes.

Como era de se esperar, há uma corrida do grupo de Temer para dar o maior número possível de tacadas antes de serem apeados do poder.

“Tacadas” é o termo utilizado pelo jovem cunhado de Rui Barbosa para definir as jogadas feitas com o erário público e o mercado.

A jogada consiste em aprovar um limite de déficit orçamentário muito além do necessário para ser administrado pelos Ministros.

A estratégia está posta na mesa:

1.     Amplia-se o déficit este ano, disponibilizam-se recursos para os Ministros financiarem as eleições municipais para contentar a base de Temer.

2.     Mantem-se a Selic no espaço, apesar da economia entrar no segundo ano de recessão profunda, para contentar o mercado.

3.     Com as duas frentes pacificadas, montam-se as “tacadas”.

Há as tacadas grosseiras, de uso do orçamento para manobras políticas. E as tacadas sofisticadas, que passam léguas além do conhecimento da Justiça.

Há quatro tipos dessas “tacadas”:

Tacada 1 – a venda de ativos.

Tacada 2 – as legislativas, que precisam passar pela Câmara e Senado.

Tacada 3 – as regulatórias, que dependem da caneta do Executivo, mas que, por vezes, precisa o aval do Congresso.

Tacada 4 – as arbitragens entre juros e câmbio.

Vamos a alguns exemplos de tacadas tradicionais que deverão ser repetidas no interinato e que fazem parte do enorme espólio de ações deletérias contra o orçamento e o país.

Tacada 1 – as tacadas com juros e ativos

A tacada com juros é simples. O preço dos ativos varia de acordo com a taxa de retorno (ou rentabilidade esperada). E essa taxa de retorno se baseia no nível da taxa Selic, fixada arbitrariamente pelo Banco Central.

A lógica é mais ou menos essa:

1.     Quero um rendimento de R$ 1.000,00 por ano por dez anos.

2.     A taxa de juros é de 10% ao ano.

3.     Quanto preciso investir para ter esse rendimento? R$ 6.145.

Se a taxa de juros subir para 15% ao ano, com mais juros será necessário investir menos para se ter o mesmo rendimento. No exemplo, o investimento cai para R$ 5.019,00.

Essa lógica vale para os preços dos ativos. Quanto maior a taxa de juros, menor o preço do ativo. E a taxa de juros referencial é a Selic.

Exemplo 1 – o preço de empresas

Suponha uma empresa que tenha um resultado anual de R$ 10.000.000,00.

Com a Selic a 8% ao ano, seu valor de mercado será de R$ 67.100.813,99.

Basta a Selic saltar para 14,5% para o valor da mesma empresa, com o mesmo resultado anual, cair para R$ 51.159.076.00 – uma queda de 25%.

Quem ganha – o comprador capitalizado.

Quem perde – o dono da empresa que precisou vender seu negócio.

Exemplo 2 – o preço dos imóveis.

Pela Tabela Price (simplificando a conta), uma prestação de R$ 5 mil mensais, por 240 meses, a uma taxa de juros de 8% ao ano permitiria tomar um financiamento de até R$ 610.388,65. Se a taxa do financiamento subir para 11,5% ao ano, o valor financiado máximo cairá para R$ 486.492,12.

Essa queda no valor do financiamento se refletirá na queda no valor dos imóveis. Mediante a mera elevação dos juros de financiamento de 8% para 11,5% ao ano, houve um impacto de 20% no valor dos imóveis.

Quem ganha – o investidor que compra à vista.

Quem perde – o dono do imóvel.

Exemplo 3 – o preço de uma estatal privatizada

O padrão adotado no período Collor-Itamar-FHC consistia em dois estratagemas combinados para diminuir o preço de referência.

1.     Consideravam a empresa como se apresentava, em geral com problemas de gestão e de capitalização, e não seu valor potencial, operando após os ajustes.

Suponha uma empresa cujo resultado fosse de R$ 1 milhão/ano. Com uma TIR de 8% ao ano, o valor da empresa seria de R$ 6,7 milhões. Mas suponha que com investimentos de R$ 300 mil mais mudança de gestão os resultados pudessem aumentar em 20%. Nesse caso, o valor da empresa saltaria para R$ 7,8 milhões, ou 16% a mais/

2.     Aumentavam a TIR para reduzir o valor.

Não se ficava nisso. Na hora de calcular o preço, utilizavam TIRs elevadas. Se a TIR considerada fosse de 14% ao ano, o preço de referência cairia para R$ 5,2 milhões.

Com esses dois estratagemas combinados, derruba-se em até 49% o valor da companhia.

Quem ganha – os compradores e os intermediários

Quem perde – a viúva e, eventualmente, o consumidor.

Exemplo 4 – as concessões

Aqui há três tacadas mais usuais.

A primeira consiste na manipulação da TIR (a Taxa Interna de Retorno).

A segunda, na subestimação do faturamento futuro.

A terceira, na superestimativa dos investimentos e gastos em manutenção. Esta é a mais facilmente identificada.

Por exemplo, com dois anos de recessão, houve uma queda óbvia no movimento das estradas. No caso de uma concessão rodoviária, basta tomar por base o movimento atual, projetá-lo pelos próximos 25 anos.

Confira no quadro um pequeno exemplo de como manipular concessões.

Imagine uma rodovia na qual o concessionário se propõe a investir R$ 100 milhões. A uma TIR de 8%, supondo que por ano trafeguem 1 milhão de veículos, o valor do pedágio deveria ser de R$ 9,37 para garantir a TIR.

Mas suponha que, além do aumento da TIR, o ínclito Moreira Franco, Secretário Especial de Concessões e outras Matérias, permita uma previsão de 800 mil veículos/ano. E que a TIR seja ampliada para 14% ao ano. Esses dois movimentos, combinados, farão o preço do pedágio saltar para R$ 18,19.

Mas confiemos na imaginação criadora desse pessoal. Suponha que o movimento ereal das estradas fique de fato em 1 milhão de carros/por ano. Com o pedágio a R$ 18,19, o faturamento anual será de R$ 18,2 milhões e a TIR saltará para 17% ao ano.

Peça 2 – as tacadas com câmbio

O novo presidente do Banco Central Ilan Goldfjan nem precisou esquentar a cadeira para promover o jogo de juros e câmbio.

Com o PIB caindo mais de 3 pontos pelo segundo ano consecutivo, fez questão de montar uma política monetária visando a manutenção da atual taxa Selic. Não há nenhuma lógica macroeconômica na medida, mas todas as razões de ordem financeira. Trata-se da tacada mais velha que o BC aplica desde o plano Real.

O efeito imediato foi a derrubada da taxa de câmbio.

O mero fato do dólar cair de R$ 3,60 para R$ 3,20 possibilita um ganho de 12,5% para quem trouxe a R$ 3,60 e retirou a R$ 3,20.

A conta é simples

Momento 1 – trouxe US$ 1 milhão a R$ 3,60 = R$ 3,6 milhões

Momento 2 – converteu R$ 3,6 milhões com o dólar a R$ 3,20 = US$ 1,125 milhão.

Mas não se fica nisso. Todo investidor que sabia antecipadamente a estratégia monetária de Ilan, apostou em negócio ainda mais lucrativo.

Imagine que o sujeito traga US$ 10 milhões com o dólar a R$ 3,60. Ficou com R$ 36 milhões. Ai ele deixa o dinheiro aplicado por um ano na taxa Selic de 14,5%. No final do período, estará com R$ 41,2 milhões. Se o dólar estiver em R$ 3,20 ele converte o saldo em dólares e retirará do país US$ 12, 9 milhões, um lucro de 29% ao ano em dólares.

Se der sorte e o dólar estiver em R$ 3,00, o lucro será de 37% ao ano. Simples, limpo e merecendo todos os elogios da República do Paraná já que, segundo os grandes pensadores locais, é a abertura da economia que permite espantar a corrupção do país.

A conta será jogada nas costas da dívida pública, já que o BC recorrerá aos títulos do Tesouro para absorver os reais adquiridos com os dólares que entram.

Quem ganha – os investidores com dólares.

Quem perde – o Tesouro e o orçamento público.

Peça 3 – as tacadas com a repatriação de recursos

A lei de repatriação de recursos definiu uma alíquota de 15% sobre o total de recursos repatriados, mais 15% a título de multa. No total, 30%.

Só que fixou como base de cálculo, o dólar do último dia de 2014, no valor de R$ 2,66. Com o dólar a R$ 3,60, que trouxe recursos acabou pagando uma alíquota de apenas 22%.

Confira a conta.

O cidadão traz US$ 10 milhões. Com o dólar a R$ 3,60, converteu em R$ 72 milhões. A alíquota de 30% significaria uma tributação de R$ 21,6 milhões.

Mas, de acordo com a lei, a Receita irá tributar apenas R$ 53,1 milhões – porque os US$ 10 milhões foram convertidos pelo dólar a R$ 2,66. Assim, a tributação caiu para R$ 15,9 milhões, ou 22% de alíquota.

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